Homilia de D. António Carrilho, Bispo do Funchal na Missa de Quarta-feira de Cinzas 2013

Homilia de D. António Carrilho, Bispo do Funchal na Missa de Quarta-feira de Cinzas 2013 
Sé do Funchal, 13 de Fevereiro de 2013

A fé floresce e frutifica na caridade! 

 “Convertei-vos a Mim de todo o coração…” (Joel 2,12). Com a celebração litúrgica de hoje, quarta-feira de Cinzas, a Igreja inicia a sua caminhada quaresmal, tempo especial de graça, de conversão pessoal e comunitária, como preparação para a solene e frutuosa celebração da Páscoa, acontecimento central da nossa fé cristã. As cinzas são sinal de penitência, convite ao arrependimento e à conversão; lembram a fragilidade e finitude humanas neste nosso peregrinar, a caminho da eternidade de Deus. É assim que o rito da bênção e imposição das cinzas não pode ser apenas um gesto exterior, de mera tradição, mas um compromisso interior exigente, na escuta da Palavra e na fidelidade à voz do Espírito. Diz-nos Deus, através do Profeta Joel: “Convertei-vos a Mim de todo o coração…” (2,12). Daí a urgência de parar, de fazer silêncio, interiorizar a mensagem e caminhar ao ritmo do Coração de Cristo. A Quaresma é tempo de preparação para a Páscoa; tempo de saborear e aprofundar o sentido do nosso Baptismo, nas suas múltiplas implicações; tempo de aceitar o desafio de caminharmos ao encontro do verdadeiro rosto de Cristo, em escuta atenta da Palavra, na oração e no acolhimento da reconciliação sacramental; tempo de voltar para o Senhor com todo o coração, em conversão de amor a Deus e aos irmãos. 

A força libertadora da Palavra 

O verdadeiro dinamismo quaresmal é provocado pela leitura, interiorização e vivência da Palavra de Deus, que deve pautar a nossa vida familiar, eclesial e social. “A Palavra divina introduz cada um de nós no diálogo com o Senhor: o Deus que fala, ensina-nos como podemos falar com Ele” (Bento XVI, Verbum Domini, 24). O texto do livro do profeta Joel, que acabámos de escutar, acentua a exigência de renovação interior: “rasgai o vosso coração e não os vossos vestidos” (Joel 2,13). Trata-se de uma mudança, de uma conversão verdadeira e profunda do próprio coração, que no sentido bíblico significa a totalidade da pessoa. Este convite estende-se a todas as pessoas de todas idades e tem como resposta certa a presença libertadora e salvadora do amor misericordioso de Deus: “O Senhor encheu-Se de zelo pela Sua terra e teve compaixão do Seu povo” (Joel 2,18). Na segunda leitura, S. Paulo, impelido pela caridade de Cristo, pede aos irmãos da comunidade de Corinto, que, “pelo amor de Cristo se reconciliem com Deus” (2Cor 5,20). Na teologia Paulina, Cristo Crucificado assume o mistério da nossa iniquidade, “fez-se pecado por amor de nós” (2Cor 5, 20), para nossa salvação. A loucura e sabedoria da Cruz, que tanto apaixonam Paulo, são a visibilidade do indizível amor do Pai pela humanidade. Suprema bondade divina, que se revela na entrega voluntária do Filho, como Cordeiro inocente, imolado sobre a Cruz. Deus não se impõe ao homem. É oferta gratuita de infinito Amor. “Não sejamos insensíveis à bondade de Cristo”, lembra-nos Santo Inácio de Antioquia.

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